Para muitas famílias, escutar a frase: “Não brinque com a comida!”, fez parte da criação tradicional. No entanto, quando nos aprofundamos nos estudos da fonoaudiologia e da integração sensorial voltados para a seletividade alimentar, descobrimos que o brincar estruturado com os alimentos é uma das ferramentas terapêuticas mais eficientes para reduzir aversão e a ansiedade infantil na mesa.
Para uma criança com hipersensibilidade sensorial ou transtorno do processaento sensorial, encarar um alimento novo diretamente no prato, com a cobrança de levá-lo à boca e engolir, pode disparar respostas reais de estresse e rejeição.
A exploração sensorial fora do momento da refeição, retira a pressão do consumo e permite que a criança conheça as propriedades do alimento no seu próprio tempo.
A escalada Alimentar: O que Acontece Antes da Primeira Mordida?
A alimentação envolve todos os sentidos. Antes de comer um alimento, a criança passa por diferentes etapas de aproximação:
- Tolerar: Conseguir estar no mesmo ambiente ou ver o alimento na mesa sem crise de ansiedade.
- Interagir: Tocar no alimento usando utensílios (colher, garfo, palito…)
- Cheirar: Aproximar o alimento do rosto e tolerar seu aroma.
- Tocar com as Mãos: Sentir a textura, umidade, temperatura e consistência com os dedos.
- Provar: Tocar o alimento nos lábios, na língua ou dar pequenas mordidas (podendo cuspir se sentir desconforto)
- Engolir: Etapa final da aceitação e integração do alimento.
O brincar sensorial atua justamente nas fases intermediárias (interagir, cheirar e tocar), construindo a ponte de segurança necessária para a aceitação futura.
Atividades Sensoriais Práticas e Divertidas para Fazer em Casa
Para que a brincadeira funcione, o objetivo principal deve ser a diversão e a curiosidade, sem nunca cobrar que a criança coma o que está manipulando.
- Pintura Natural com Purês e Caldos:
Utilizando purês ou caldos coloridos (beterraba, cenoura, espinhafre…), ofereça papel canson ou uma bandeja plástica para a criança fazer desenhos usando os dedos ou pincéis num primeiro momento. Essa atividade dessensibiliza a pele das mãos em relação a texturas pastosas e úmidas.
- Carimbos de Frutas e Legumes:
Corte legumes firmes (como batata, cenoura, chuchu..) em formatos divertidos ou use pedaços de maça e carambola e passe em tinta alimentícia (usando corantes). Deixe a criança carimbar folhas de papeç, isso ajuda no reconhecimento de formas e firmeza dos alimentos, além da textura.
- Escavação e Descobrimento na Cozinha:
Esconda pequenos brinquedos laváveis dentro de uma tigela com grãos secos (feijão, arroz, milho de pipoca, macarrão cru). A criança usa as mãos para “resgatar” os objetos, acostumando-se com a sensação tátil dos grãos.
Como Lidar com a Bagunça sem Estresse
Sabemos que a rotina das mães atípicas já é bastante agitada e atarefada e a ideia de sujeira pode gerar cansaço, só de pensar. Algumas estratégias ajudam a manter a brincadeira tranquila.
- Delimite o Espaço: Utilize uma toalha plástica no chão ou mesa, uma bandeja grande de plástico/bacia ou faça a atividade na mesa do quintal/varanda.
- Programe o Momento: Escolha dias e horários em que você e a criança estejam descansados, longe da hora do almoço ou jantar, para que não haja pressa.
- Respeite os Limites da Criança: Se seu filho demonstrar incômodo extremo ao sujar as mãos, ofereça paninhos úmidos ao lado ou permita que ele use utensílios (colheres grandes, pegadores, conchas) no início.
Pequenas interações diárias e sem pressão transformam a relação da criança com a comida a longo prazo. Lembre-se, o avanço na seletividade alimentar não é medido apenas por pratos vazios, mas sim pelo aumento de conforto e da curiosidade da criança diente do mundo dos alimentos.
Como fonoaudióloga especialista em desenvolvimento infantil e seletividade alimentar e vivenciando a maternidade atípica e inclusiva diariamente, sei que o respeito ao tempo sensorial de cada filho é o caminho mais seguro para a autonomia à mesa.

Você ja testou alguma brincadeira sensorial com alimentos? Como seu filho reagiu ao toque? Deixe seu comentário abaixo para tocarmos experiências ou me envie uma mensagem.